Declaração D 2018

Declaração D 2018

Este documento apresenta a síntese das revisões científicas apresentadas ao Fórum D 2018, realizado em Coimbra, em 13 de outubro de 2018

Vitamina D (Hormona?) Agente Ubiquitário 
Professora Doutora Anabela Mota Pinto 

A vitamina D fisiologicamente tem uma ação complexa e harmoniosa sobre um grande número de mediadores biológicos e vias de sinalização, numa grande variedade de células, em todos os órgãos e sistemas.

Os seus mecanismos de ação podem dividir-se em dois grandes grupos. 1-Regulação da homeostasia do cálcio/fosfato e Metabolismo ósseo; 2-Efeitos extra-ósseos (“não clássicos”), que incluem a título de exemplo a Proliferação, Diferenciação e Apoptose Celular, Metabolismo da Glicose, Modulação da Imunidade Inata e Adaptativa. O efeito global destes mecanismos de ação, é favorável à estabilidade celular e manutenção da homeostasia numa abrangência ubiquitária e multisistémica.

A sua relação com a fisiopatologia/patologia está relacionada com o seu défice e deve considerar-se um fator de risco complexo e universal. Embora vários polimorfismos estejam identificados com a via de formação da Vitamina D, o impacto dos componentes genéticos no défice desta vitamina é considerado relativamente pequeno quando comparado aos componentes ambientais.

A primeira indicação clara de que este défice pode causar doença surgiu com a relação do raquitismo e o declínio da absorção de cálcio intestinal por níveis baixos de vitamina D. Subsequentemente, os défices de vitamina D têm sido associados a muitas outras doenças humanas tais como a doença de Alzheimer, doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes tipo II, cancro, esclerose múltipla, doença de Parkinson e vários patologias inflamatórias.

A associação da concentração da Vitamina D e aumento de morbilidade e mortalidade é notavelmente consistente, no entanto os estudos clínicos e in vivo nem sempre são concordantes, os outcomes dos estudos estão mal definidos e verifica-se uma não uniformização de conceitos (por exemplo doses administradas, níveis séricos).

 

Vitamina D e Saúde da Mulher

Dr. Cláudio Rebelo

(texto elaborado por Cátia Duarte)

A importância da Vitamina D na saúde da mulher tem sido amplamente avaliada desde a vida intra-uterina até a menopausa.

A vida intra-uterina é um preditor importante para o estado de saúde de todos os indivíduos, sendo por isso fundamental que se assegurem todas as condições necessárias para um normal desenvolvimento da gravidez. Estudos observacionais têm demonstrado uma associação entre a deficiência de Vitamina D e piores outcomes de gravidez como hipertensão e pré-eclâmpsia, intolerância à glicose, infeções vaginais, risco de cesariana, baixo peso dos recém-nascidos e partos pré-termo. A suplementação com vitamina D em gravidas com diabetes gestacional reduz o risco de macrossomia e parto pré-termo. Também a depressão pós-parto tem sido associada em diversos estudos a níveis deficientes de Vitamina D.

Contudo, ensaios randomizados e controlados que demonstrem a eficácia da suplementação com vitamina D em grávidas são escassos. Uma revisão sistemática da Cochrane concluiu que, apesar dos vários estudos a concluírem que a suplementação com Vitamina D pode reduzir o risco de pré-eclâmpsia, de peso baixo ao nascer e risco de parto pré-termo são necessários mais ensaios randomizados. As recomendações da suplementação da Vitamina D em gravidas é controversa, havendo discordância entre diversas sociedades científicas.

A suplementação com vitamina D na gravidez deverá ser ponderada de acordo com a grávida. A suplementação deverá ser feita em todas as grávidas com gestação múltipla, as fumadoras, as adolescentes, as jovens de raça negra, obesas, toxicodependentes e mulheres com patologia psiquiátrica, com doenças inflamatórias intestinais e todas as que trabalham muitas horas fechadas em edifícios sem luz solar.  Também grávidas mais maduras e com períodos intergenésicos curtos, pois acima dos 40 anos os níveis de vitamina D são mais baixos e há algum detrimento da massa óssea.

Salienta-se que a suplementação com vitamina D durante a gravidez é segura. De acordo com os estudos, não foi encontrado nenhum efeito adverso, nem problemas de segurança, começando a suplementação às 12 ou 16 semanas, com 4 mil unidades.

Há trabalhos que vêm demonstrar que o défice de vitamina D condiciona, desde logo, a fertilidade, tanto no feminino, como no masculino. Em casais a fazer técnicas de medicina de reprodução, com a avaliação prévia da falta desta vitamina, verificou-se que com a suplementação, por vezes com doses altas, se obtinham melhores resultados para concretizar a gravidez.

A vitamina D assume importante relevância noutras fases na saúde da mulher, além dos seus reconhecidos benefícios na saúde óssea. Níveis baixos de vitamina D têm sido associados à dismenorreia e a suplementação contribui para uma diminuição significativa da frequência e da intensidade da dor após oito semanas de tratamento com suplementação de Vitamina D.  O défice de vitamina D tem sido associado a problemas de fertilidade, tanto feminina, como masculina. Em casais sujeitos a técnicas de reprodução medicamente assistida verificou-se que com a suplementação, por vezes com doses altas, se associavam a maior eficácia.

Também no cancro da mama, os níveis mais baixos de Vitamina D têm sido associados a pior prognóstico.

O papel da vitamina D na fase pós-menopausa tem-se centrado sobretudo nos seus efeitos no metabolismo ósseo a na prevenção de fraturas osteoporóticas. O envelhecimento da pele, alterações do estilo de vida, a presença de comorbilidades aumentam o risco de deficiência de vitamina D neste grupo etário. Contudo, de uma meta-análise recente, de 81 ensaios randomizados concluir que a suplementação de Vitamina D não reduz o risco de fraturas osteoporóticas.  , A suplementação de Vitamina D deverá ser ponderada em mulheres pós- menopausa, as que têm mais de 70 anos, idosas obesas, de raça negra, sem exposição solar, e nos casos de patologia crónica ou renal, dada a associação destas condições a níveis deficitários de Vitamina D. antecipadamente que essas pessoas terão carência severa.

 

Vitamina D e o Idoso

Dr. Hélder Esperto

(texto elaborado por Cátia Duarte)

Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e do mundo. Ainda que preocupante esta é uma história de sucesso que coloca a esperança média de vida para as mulheres nos 84 anos e nos 78 para os homens. Entre 2040 e 2045 atingiremos o número máximo de idosos, cerca de 3 milhões e meio, um terço da população. Uma realidade para a qual temos de nos preparar, conscientes de que a insuficiência de Vitamina D nos idosos ronda os 50%.

Sendo comum a insuficiência de vitamina D, é importante importa definir os fatores de risco. Os indivíduos com mais de 50 anos, mulheres, de pele escura, que passam pouco tempo fora de casa, obesos, com doença renal crónica e sob o efeito de certa medicação, como por exemplo as estatinas, constituem grupos de risco.

Nas recomendações internacionais, a quem rastrear e fazer a suplementação de Vitamina D, os idosos estão no topo da lista, juntamente com os indivíduos com osteoporose, historial de quedas e com fraturas não traumáticas.

Os estudos revelam que nos mais velhos o risco de desenvolvimento de declínio cognitivo é duas vezes superior naqueles que apresentam défice de Vitamina D. Os indivíduos que apresentam baixos níveis de Vitamina D têm piores resultados ao nível da memória. Também na depressão, comum nas pessoas mais velhas, e no desempenho muscular, como a velocidade de marcha, indicador muito importante do estado de saúde das pessoas mais velhas, os baixos níveis de Vitamina D parecem estar associados a piores desempenhos e a suplementação revela tendência para uma melhoria dos sintomas, apesar de estatisticamente os resultados ainda não serem significativos.

Quanto à densidade mineral óssea verifica-se uma melhoria sempre que há suplementação com Vitamina D, tanto a nível vertebral como do fémur.

Face à evidência atual é possível afirmar que a Vitamina D é segura e parece ter um papel globalmente positivo no estado de saúde do idoso.

 

Vitamina D e Desporto
Dr. Alexandre Marques

A área da nutrição desportiva tem obtido especial enfoque nas últimas décadas. No que diz respeito à Vitamina D, sabemos que os recetores de Vitamina D e os elementos de resposta da vitamina D encontram-se virtualmente em todos os tecidos do corpo humano, incluindo no músculo esquelético. A forma ativa da Vitamina D, a 1,25-dihidroxivitamina D, demonstrou desempenhar um papel crucial no ser humano, através da regulação da transcrição génica de mais de 900 genes distintos.

Apesar da possível capacidade ergogénica, sabe-se hoje que grande parte das populações atléticas são deficientes em Vitamina D. Contudo, continua a não haver consenso sobre a concentração sérica do marcador de status de vitamina D – a 25(OH)D – que defina deficiência, insuficiência, suficiência ou o limite superior que seja tolerável. A necessidade de suplementação depende de vários fatores de risco (idade, exposição solar, fototipo, etc.). As recomendações internacionais são claras sobre a suplementação de Vitamina D na população em geral, nomeadamente nos grupos de risco. Porém, embora não existam recomendações específicas para a população atlética, doses de carga de 50.000UI e de manutenção entre 5.000-10.000UI por dia, são frequentemente utilizadas.

Na performance desportiva, o papel da vitamina D ainda não está clarificado. Os dados sobre os efeitos da suplementação de Vitamina D na função e recuperação muscular são ambíguos. As discrepâncias nos estudos existentes são explicadas por heterogeneidades metodológicas, nomeadamente, diferenças nas concentrações iniciais de Vitamina D antes da suplementação. Coletivamente, os dados publicados sugerem um papel benéfico da Vitamina D no processo adaptativo ao stress induzido pelo exercício. Além disso, níveis baixos de Vitamina D estão associados a um risco 3,6 vezes superior de fratura de stress.  Sabe-se ainda que valores fisiológicos de Vitamina D têm um papel relevante na manutenção da saúde do atleta, particularmente, na prevenção de doença (por exemplo, nas infeções respiratórias). Recentemente, o papel da Vitamina D na modulação das células satélite, células indiferenciadas presentes nas fibras muscular, tem sido alvo de investigação com vista à otimização de performance desportiva.

 

Vitamina D e Crescimento
Dra. Rita Cardoso

A vitamina D tem um papel fundamental na infância e adolescência. O crescimento e desenvolvimento adequado da massa óssea do adulto são estabelecidos na idade pediátrica.

A massa óssea aumenta quarenta vezes da infância á idade adulta e aos 18 anos 90% da massa óssea está já formada.

A criança e o jovem, essencialmente no 1ºano de vida e na puberdade, alturas em que a absorção de cálcio e a deposição de massa óssea são máximas, devem ter um aporte adequado quer de cálcio, quer de vitamina D. A ingesta de cálcio deve ser idealmente de 500 mg por dia (essencialmente proveniente do leite ou produtos lácteos). A vitamina D, uma vez que o nosso país, está situado numa latitude em que apesar da conhecida exposição solar, a produção de vitamina D através da pele é baixa no Inverno, deve ser proveniente da dieta e da suplementação. No Verão a criança poderá ser exposta por curtos períodos ao sol enquanto brinca na rua, sem protecção solar, já que a consegue produzir vitamina D de forma bastante eficaz, sem que isso vá aumentar o risco de cancro cutâneo.

Na revisão recente das guidelines de suplementação em muitos países europeus, está indicada a suplementação no Inverno em toda a idade pediátrica. Esta deverá ser de 400UI diárias no 1ºano de vida e de 600UI por dia até aos 18 anos. As crianças com doenças crónicas ou submetidas a tratamentos com glucocorticóides, anti-retrovirais, antiepilépticos devem fazer 2 a 3 vezes mais.

Os efeitos não ósseos da vitamina D, estão ainda para ser provados, nomeadamente nas patologias do neurodesenvolvimento. Os estudos efetuados mostram que a suplementação não melhora os sintomas no défice cognitivo, no autismo ou na hiperatividade e défice de atenção. O défice de vitamina D é frequentemente detetado nestas crianças, talvez não como causa, mas como consequência, já que estão menos expostas sol, têm particularidades em termos alimentares e podem estar medicadas. Assim deverão ser suplementadas, no sentido de prevenir o défice e promover a saúde óssea.

 

Vitamina D e Saúde Oral
Dra. Daniela Santos Silva

A periodontite e a cárie dentária são as principais causas de perda dentária não traumática.

Colocou-se a hipótese de que a Vitamina D, pelo seu papel fundamental na homeostasia do cálcio, e propriedades anti-inflamatórias e anti-microbianas, possa prevenir o desenvolvimento da periodontite, cáries e perda dentária.

Martinez-Maestre e colaboradores, em 2010, concluíram que a osteoporose sistémica se encontra relacionada com a osteoporose mandibular e com perda dentária aumentada. Há evidência sugestiva de uma relação entre osteoporose e periodontite. Genco e colaboradores em 2013, comprovam que a osteoporose aumenta o risco de perda de implantes dentários. Justifica-se, assim, que no âmbito do estado periodontal e peri-implantar do doente, se deva ter conhecimento da saúde sistémica óssea.

Recentemente, uma revisão sistemática (M. Peric e col. 2018), explorou a relação entre os níveis de Vitamina D e doença periodontal. Foram incluídos 7 estudos: 4 caso-controlo que demonstraram haver influência da Vitamina D e dos seus metabolitos no estado periodontal; 1 ensaio clínico não controlado, que parece corroborar o papel anti-inflamatório da Vitamina D; 2 estudos transversais que não comprovam relação entre Vitamina D e condição periodontal.  A literatura sobre este assunto é escassa e controversa, apesar de haver alguma evidência que suporta o papel “perio-protector” da Vitamina D.

O efeito da Vitamina D na cárie dentária da criança está bem documentado. Uma meta-análise (Hujoel e col. 2013), concluiu que a suplementação com Vitamina D pode diminuir o risco de cárie em crianças. No adulto a evidência é escassa.

Existe uma base biológica que sustenta a hipótese da deficiência nos níveis de Vitamina D poder afetar de forma adversa a saúde periodontal e funções orais, Há necessidade de mais estudos randomizados e controlados, nomeadamente sobre o impacto da exposição solar na manutenção das funções orais e dos potenciais benefícios da suplementação na saúde periodontal.

 

Vitamina D e Epilepsia
Dra. Conceição Bento

No tratamento de doentes com epilepsia, a vitamina D deve ser considerada sob 2 aspetos: o seu potencial papel no controlo das crises, e a sua importância na prevenção e tratamento da doença óssea associada ao uso dos fármacos antiepilépticos.

Em relação ao primeiro aspeto, existem evidências fisiológicas, epidemiológicas, em modelos animais e nalguns estudos humanos, que sugerem a possibilidade desta vitamina poder ter uma função antiepiléptica. Pertencer ao grupo dos neuroesteróides poderia ajudar a explicar este facto já que estas substâncias têm uma função importante como moduladores da excitabilidade neuronal e consequentemente da suscetibilidade para a ocorrência de crises epiléticas. O seu papel no metabolismo do cálcio também contribuiria para esta função, modulando as correntes de cálcio e a condutância dos canais de cálcio nas membranas neuronais. São no entanto ainda necessários ensaios clínicos (alguns a decorrer) que comprovem esta possibilidade.

O segundo especto faz parte do conhecimento corrente, uma vez que é conhecido o risco de doença óssea, raquitismo nas crianças, osteoporose nos adultos, associado a défice de vitamina D. Este risco seria mais frequente na população de doentes epilépticos, em particular quando tratados com fármacos indutores enzimáticos. Sabe-se também que o aporte alimentar e a exposição solar são frequentemente insuficientes para suprir as necessidades diárias desta vitamina. Assim alguns autores recomendam o seu doseamento sérico precocemente no início do tratamento antiepiléptico e a prescrição de doses de manutenção se os níveis forem normais, ou doses terapêuticas se existir défice, seguidas de doses de manutenção após normalização dos níveis séricos. Estas doses devem ter em conta a idade, o tipo de fármacos em curso, o IMC e para o sexo feminino a possibilidade de gravidez/amamentação, de acordo com as recomendações da Endocrine Society.

 

Vitamina D e Rim
Professor Doutor Rui Alves

Os estudos realizados até ao momento na população geral apontam para uma relação benéfica entre o status positivo de vitamina D e o declínio da função renal, pressão arterial, proteinúria e mortalidade.

Não se comprova que a suplementação em vitamina D controle a pressão arterial e a disfunção ventricular ou melhore a função renal na Doença Renal Crónica (DRC); apesar da redução da albuminúria não há diminuição da progressão da doença renal.

A mortalidade cardiovascular nos doentes renais crónicos parece ser menor nos doentes submetidos a suplementação com vitamina D. Todavia, neste momento é desaconselhado o uso da vitamina D e seus análogos em estádio pré-diálise, exceto se houver hiperparatiroidismo grave.

A suplementação com vitamina D potencia a suscetibilidade para desenvolver a formação de cálculos em indivíduos predispostos (sobretudo se a tomarem cálcio).

Subsiste muita controvérsia sobre aquilo que é considerado como o nível “normal” de vitamina D na população geral, e sobretudo no doente renal crónico;

É necessário aprofundar os conhecimentos sobre os polimorfismos dos recetores da Vitamina D nos diferentes grupos alvo, incluindo a DRC;

Embora o status de deficiência ou insuficiência em vitamina D possa ser relacionado com pior prognóstico, não significa que a suplementação o corrija;

A maior parte das metaanálises e revisões sistemáticas contêm vieses. São necessários mais e melhores estudos prospetivos, controlados e randomizados para sustentar as conclusões dos estudos anteriores.

 

Vitamina D e Cancro
Dra. Joana Silva

Segundo o projeto GLOBOCAN – projeto da agência internacional de investigação no cancro da OMS (IARC) – estima-se que, em 2018, existam 58199 novos casos de cancro e 28960 mortes por esta doença em Portugal. As estimativas deste projeto preveem ainda que a incidência e mortalidade por cancro apresentem uma tendência crescente ao longo dos anos (estão disponíveis estimativas até 2040) (1). Perante estes números, é imperativo que se estudem e encontrem soluções para tentar travar esta progressão.

Nos últimos anos, têm vindo a ser desenvolvidos estudos observacionais e alguns ensaios clínicos que nos têm fornecido algumas pistas que apontam para a capacidade que a vitamina D pode ter como fator adjuvante na prevenção e tratamento do cancro. Segundo experiências celulares realizadas tanto in vitro como in vivo, o metabolito ativo da vitamina D, a 1,25(OH)D, parece ser capaz de modular vários dos fatores envolvidos na carcinogénese através das suas ações biológicas, tendo capacidade para exercer o controlo do ciclo celular, a interrupção do crescimento da célula cancerígena e estimulação da diferenciação celular, a apoptose, a inibição da invasão e metástase, promover efeitos anti-inflamatórios e inibir a angiogénese tumoral (2, 3). Contudo, para que estes “efeitos anticancerígenos” ocorram, a concentração sérica de 25(OH)D tem de ser, pelo menos, superior a 30ng/ml (suficiência) (4), o que não se verifica na maioria da população dada a elevada prevalência de carência nesta vitamina (5-8).

Apesar de existirem resultados promissores no que respeita ao efeito de uma concentração sérica suficiente desta vitamina, como demonstrado, por exemplo, através do estudo Keum et al., 2014 (9), Budhathoki S et al., 2018 (10) e do estudo Hohaus S et al., 2017 (11), existem também estudos a concluir que ainda não existem evidências de que a vitamina D reduza a incidência e mortalidade por cancro, como demonstrado pela revisão sistemática e meta-análise de RCT´s, Goulão B el al., 2018 (12).

Dado o que já se conhece hoje, é crucial que a investigação continue de modo a que se compreenda o verdadeiro potencial desta vitamina na doença oncológica e se descubra qual a concentração sérica ótima para que os efeitos anticancerígenos se manifestem, bem como a dose de vitamina D necessária para a atingir. Neste sentido, grandes expectativas se colocam nos ensaios clínicos de grande escala (N>10000 participantes) que se encontram a decorrer em todo o mundo com suplementação de vitamina D e nos quais o cancro é um dos principais endpoints (VITAL, D-Health, FIND, VIDAL).

 

Referências:

1)IARC. GLOBOCAN 2018 [Internet];  [citado a 12 out 2018]. Disponível em: http://globocan.iarc.fr.

2)Krishnan AV, Trump DL, Johnson CS, Feldman D. The role of vitamin D in cancer prevention and treatment. Endocrinol Metab Clin North Am. 2010;39(2):401–18.

3)Holick MF. Vitamin D: its role in cancer prevention and treatment. Prog Biophys Mol Biol. 2006;92(1):49-59.

 

Vitamina D em Portugal
Dra. Catia Duarte

O estudo “A Carência de Vitamina D em Portugal” da FACULDADE DE MEDICINA DE COIMBRA em colaboração com a Nova Medical School, teve como objetivo avaliar a status de Vitamina D na população adulta portuguesa.  Os dados do estudo mostram que de acordo com os valores de referência recomendados pela Endocrine Society, 66,6% da população apresenta “deficiência de Vitamina D”, dos quais 21,2% têm “deficiência grave”. Apenas 3,6% apresenta valores considerados “normais”.

O risco de Deficiência de Vitamina D (níveis ≤ 10 ng/mL) é superior nos Açores ((OR:9.39; 95%CI: 1.27-69.6),), no Inverno ((OR:18.53; 95%CI: 7.83-43.87) e Primavera (OR: (11.55; 95%CI:5.18-25.74), nos idosos ((OR: 2.61; 95%CI: 1.35-5.08)  e nas mulheres ((OR 1.9, 95%CI: 1.1—3.28),). Outros fatores de risco, modificáveis, como a obesidade (OR: 2.61; 95%CI: 1.35-5.08)) ou o tabagismo ((OR:2.33; 95%CI: 1.23-4.43) ) estão associados a um risco mais elevado, enquanto a prática de exercício físico ou o consumo ocasional de bebidas alcoólicas se associam a um menor risco de vitamin D ≤ 10 ng/mL.

Os resultados deste estudo, reforçam a necessidade de implementação de medidas de saúde pública de forma a minimizar a deficiência de Vitamina D na população adulta portuguesa.

 

Vitamina D e métodos laboratoriais
Professor Doutor Germano de Sousa

Vitamina D é o nome genérico dado a um grupo de secosteróides lipossolúveis que

inclui Vitamina D3 (colecalciferol) e Vitamina D2 (ergocalciferol), o calcifediol e o

calcitriol O calcitriol, a forma ativa de Vitamina D, é lipossolúvel e transportada no

sangue ligada a uma proteína transportadora desta vitamina.

Embora a 25(OH)D seja uma pro-hormona que só é ativa quando transformada em 1,25OH2D, é a concentração sérica do 25(OH)D que é correntemente utilizada para avaliar clinicamente o “status” orgânico da Vitamina D. A 25-hidroxilase é uma enzima que não é regulada pelo substrato ou pelo produto da reação, o que significa que se mantém constante e os níveis de 25-OH refletem a concentração de substrato. Por fim, a sua concentração em nanogramas por mililitro (ng/mL) é difícil de medir.

Dos fatores que influenciam a precisão dos resultados com 25-OH Vitamina D destacam-se o efeito sazonal, a idade, o género e fatores genéticos. A 25-(OH) D circulante é difícil de medir dado estar fortemente ligada à proteína de transporte, sendo a fração livre no sangue negligenciável. Na avaliação da concentração sérica de 2- (OH)D são utilizados solventes orgânicos, procedendo-se posteriormente à reconstituição numa matriz e à quantificação pela via do imuno-ensaio ou da separação via cromatografia. Os diversos métodos de separação da proteína de transporte por solventes orgânicos têm percentagens de recuperação muito diferentes de método para método, sendo a espectrometria de massa o método com melhores resultados, considerado por isso de referência.

Por outro lado, a padronização dos ensaios também afeta a viabilidade inter-ensaios,

pois nem todos os fabricantes usam no material ou o mesmo padrão de referência. O

próprio fabricante tem, muitas vezes, materiais de referência internos para fazer curvas padrão, mas usam outros materiais para o controlo. A reatividade cruzada com outros

metabolismos da Vitamina D pode também interferir nestes doseamentos. Outros

constituintes da amostra, como o material em que foi dissolvida a Vitamina D, podem

interferir. A existência de anticorpos heterofílicos deverá ser considerada, podendo

causar diferenças nas avaliações. Por outro lado, ainda, a afinidade do anticorpo para a 25-OH D3 e a 25- OH D2 pode variar entre métodos, uns mais sensíveis à Vitamina D2 e outros à Vitamina D3. Ou seja, a variabilidade intra e inter-laboratórios é elevada

particularmente em concentrações baixas de Vitamina D, podendo levar a disgnósticos incorretos de insuficiência ou deficiência desta vitamina.

Apesar de considerada a técnica de referência, à cromatografia apresenta como limitação a incapacidade de distinguir o epímero C3 da 25- hidroxivitamina D, podendo a sua inclusão na medição contribuir para níveis falsamente elevados de Vitamina D.

Atualmente já é utilizado um padrão que permite reduzir a imprecisão nos métodos. Só podem usar-se os devidamente certificados e metodologias que tenham uma imprecisão inferior a 10 por cento, sendo a certificação pelo CDC válida por um ano.

Considerando a variabilidade entre métodos e as consequentes implicações na classificação do status de deficiência ou insuficiência de vitamina D, a seleção do método adequado para a o doseamento de vitamina D no soro é fundamental quer em investigação quer na prática clínica diária.

 

Vitamina D e Recomendações
Professor Doutor Pereira da Silva

O rastreio de Deficiência de Vitamina D apenas está indicado em situações de possível carência sintomática em que se ponderem doses de carga. O doseamento pode ser útil para conduzir doses de manutenção, mas não é indispensável.

A reposição de vitamina D deve fazer-se preferencialmente com colecalciferol ou ergocalciferol, sendo ambas igualmente eficazes e seguras nas doses recomendadas. O calcitriol tem maiores riscos de toxicidade (hipercalcemia) e só deve ser utilizado em circunstâncias especiais, por profissionais experientes no seu uso. Pode ser administrada em doses diárias, semanais ou mensais, estando estas associadas a níveis séricos ligeiramente mais baixos.

O objetivo consiste em atingir e manter concentrações séricas de vitamina 25OH D superiores a 30 e inferiores a 100ng/mL.

Doses de manutenção: da ordem de 800 a 2000UI/dia, deverão considerar-se indicadas em pessoas com níveis médios de risco (quase toda a gente!) e sempre que não tenhamos conhecimento da concentração sérica de vitamina 25 OHD.  Pessoas obesas precisarão de dores até 3 vezes superiores.1

Doses de carga: sempre que a concentração sérica de vitamina 25OH D for inferior a 20ng/mL deverá considerar-se administração de doses de carga que permitem recuperar de forma mais rápida e segura os níveis de vitamina D para os valores desejáveis. Estes regimes devem ser seguidos de doses de manutenção. Os seguintes esquemas terapêuticos podem ser utilizados como doses de carga1:

50 000 UI/semana de Vitamina D2/D3 durante 8 semanas ou

50 000 UI de Vitamina D2/D3 3x por semana durante um mês ou

6000       dia de Vitamina D2/D3 durante oito semanas

 

Referências

Holick MF1Binkley NCBischoff-Ferrari HA et al. Evaluation, treatment, and prevention of vitamin D deficiency: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2011 Jul;96(7):1911-30

 

 

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