Níveis séricos de Vitamina D maternos e risco de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção na descendência

Níveis séricos de Vitamina D maternos e risco de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção na descendência

Resumo (tradução):

[Sucksdorff M et al, Maternal Vitamin D Levels and the Risk of Offspring Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder, Journal of the American Academy of Child & AdolescentPsychiatry (2020), doi: https://doi.org/10.1016/j.jaac.2019.11.021.]

Objetivo: Evidência recente tem realçado a importância da vitamina D no desenvolvimento do sistema nervoso central. Alguns estudos mostraram associação entre o défice de vitamina D durante a gravidez e os sintomas de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) na descendência, avaliados por escalas de avaliação parental e professores. Não há estudos prévios sobre o efeito dos níveis séricos de 25-hidroxivitamina D (25(OH)D) no primeiro trimestre da gravidez e o risco de PHDA na descendência.

Métodos: Este estudo caso-controlo de base populacional incluiu 1067 crianças nascidas entre 1998 e 1999 com diagnóstico de PHDA de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID), e 1067 controlos. Os níveis séricos maternos de 25(OH)D foram medidos por imunoensaio em amostras do primeiro trimestre da gravidez de um biobanco nacional. A associação entre a 25(OH)D materna e PHDA na descendência foi avaliada por regressão logística.

Resultados: Encontrou-se uma associação significativa entre a 25(OH)D materna e PHDA na descendência quer na análise não ajustada (OR 1.65, IC95% 1.33-2.05, p<0.001) quer após ajustamento para a idade e estatuto socioeconómico maternos (OR 1.45, 95% CI 1.15-1.81, P=.002). A análise por quintis da 25(OH)D materna mostrou que baixos níveis de 25(OH)D (1º quintil) se associavam a um OR de 1.53 (95% CI 1.11-2.12, P=.010) de PHDA na descendência comparando com níveis altos (5º quintil).

Conclusão: Este estudo demonstrou uma associação entre baixos níveis de 25(OH)D maternos durante a gravidez e aumento do risco de PHDA na descendência. Este achado, se replicado em amostras independentes, poderá ter importantes implicações em termos de saúde pública.

Comentário ao artigo:

A PHDA é uma perturbação neurobiológico-comportamental caracterizada por desatenção, hiperatividade e impulsividade. Tem uma prevalência estimada de 5% e é um dos principais motivos de referenciação a consultas de Neurodesenvolvimento e Pedopsiquiatria.

A sua etiologia é multifatorial, tendo uma forte predisposição genética que explica 70-80% da variabilidade fenotípica, sendo também influenciada por factores ambientais que explicam os restantes 20-30%. Dentro destes factores ambientais, os factores nutricionais mais frequentemente implicados têm sido o défice de ferro e de ácidos gordos ómega 3 e 6. No entanto, literatura recente tem demonstrado a importância da vitamina D no sistema imunitário, no sistema cardiovascular e no sistema nervoso central, para além do sistema musculoesquelético.

Sabendo que o período pré-natal é um período crítico no desenvolvimento do sistema nervoso central, alguns estudos prévios encontraram associação entre os níveis de vitamina D maternos durante a gravidez e autismo e esquizofrenia.  Em relação à associação entre vitamina D e PHDA, a maioria dos resultados dos estudos disponíveis estão limitados pela pequena dimensão das amostras, e pelas medições dos níveis séricos de vitamina D apenas tardiamente na gravidez ou ao nascimento.

Neste comentário, debruçamo-nos sobre um estudo de caso-controlo baseado numa coorte finlandesa (Finish Prenatal Study of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder).

Este é um estudo prospetivo que incluiu uma amostra de grande dimensão e de base populacional, sendo um estudo robusto do ponto de vista metodológico. Os dados resultam do cruzamento de três registos nacionais, Care Register for Health Care (CRHC), Finnish Medical Birth Register (FMBR) e Finnish Central Population Register (FCPR) e do biobanco nacional Finnish Maternity Cohort (FMC).

O CRHC é uma base de dados clínica que inclui os diagnósticos classificados segundo a CID efetuados em serviços especializados. Neste registo, foram identificadas 1067 crianças com PHDA nascidas entre 1998 e 1999. Foram também selecionados 1067 controlos nascidos no mesmo período, controlados para o sexo, data e local de nascimento e excluídas crianças com perturbação da conduta ou perturbação do desenvolvimento intelectual grave.

Os dados sobre o período neonatal foram obtidos a partir do FMBR, que fornece informação exaustiva sobre o recém-nascido e sobre o contexto sociodemográfico, a história reprodutiva, e comportamentos de saúde maternos e eventos perinatais.

Os níveis de vitamina D maternos foram medidos em amostras preservadas no biobanco FMC, que inclui amostras séricas colhidas no primeiro e segundo trimestre (2-4 meses de gestação) de cerca de 950.000 grávidas e guardadas a -25ºC num biorrepositório protegido.  

Na análise de regressão, foram tidos em consideração importantes possíveis fatores de confundimento quer da mãe, tais como idade materna, etnia, psicopatologia, paridade, estatuto socioeconómico, tabagismo (medido por níveis séricos de cotinina na amostra), uso de substâncias; quer da criança, tais como idade gestacional e o peso para idade gestacional. Foi também tido em consideração a estação do ano em que foi realizada a colheita.

Este estudo encontrou uma associação significativa entre a vitamina D materna e PHDA na descendência quer na análise de regressão linear não ajustada (OR 1.65, IC95% 1.33-2.05, p<0.001) quer após ajustamento para a idade e estatuto socioeconómico maternos (OR 1.45, 95% CI 1.15-1.81, P=.002). Na análise de regressão multinominal por quintis da vitamina D materna, também baixos níveis (1º quintil) se associam a um OR de 1.53 (95% CI 1.11-2.12, P=.010) de PHDA na descendência comparando com níveis altos (5º quintil).

Do ponto de vista neurobiológico, é plausível que a vitamina D influencie a programação epigenética fetal neste período crítico para o desenvolvimento cerebral e modifique os processos neurotróficos, de neurodiferenciação, maturação e crescimento cerebral sinalizados pelo cálcio. Também estudos em animais mostram que o défice de vitamina D precoce potencia a hiperlocomoção e aumento da atividade pela alteração dos circuitos dopaminérgicos.

Este estudo tem, no entanto, algumas limitações. Este estudo decorreu na Finlândia, um país de elevada latitude, com longos períodos de baixa exposição solar ao longo do ano, o que pode limitar a sua aplicação para outros contextos geográficos. Os casos foram identificados a partir dos diagnósticos efetuados em centros especializados, representando um viés sistemático na seleção dos casos, com possível seleção dos casos mais graves de PHDA. Por outro lado, a percentagem de PHDA nos pais foi mais baixa do que o expectável, podendo dever-se a diferenças na acuidade diagnóstica entre gerações. Finalmente, não foi considerado o estado nutricional materno. Na verdade, baixos níveis de vitamina D podem ser um marcador indireto de uma dieta pobre em outros factores importantes para o desenvolvimento do SNC, como ácidos gordos.

Em resumo, este é o primeiro estudo, robusto do ponto de vista metodológico, a demonstrar a associação entre baixos níveis de vitamina D nos primeiros trimestres da gravidez e PHDA na descendência. São necessários mais estudos noutros contextos geográficos para corroborar estes achados. Fica por responder o possível benefício da suplementação com vitamina D durante a gravidez na redução do risco de PHDA, sendo necessários estudos aleatorizados controlados que estabeleçam o seu efeito a longo prazo.

Constança Santos1,2, Cristina Pereira1,3

  1. Neuropediatria, Centro de Desenvolvimento da Criança, Hospital Pediátrico de Coimbra do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
  2. Serviço de Pediatria, Centro Hospitalar Cova da Beira
  3. Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
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