Suplementação com vitamina D traz benefícios para a saúde musculoesquelética?

Suplementação com vitamina D traz benefícios para a saúde musculoesquelética?

Resultados do estudo Bolland et al. (2018) revelam que existe pouca justificação para a utilização de suplementação com vitamina D para manter ou melhorar a saúde musculoesquelética.

Poderá a conclusão ser assim tão linear?

O estudo de Bolland et al. (2018) foi uma revisão sistemática com meta-análise com o objetivo de determinar o efeito da suplementação com vitamina D nas fraturas, quedas e densidade mineral óssea. O estudo incluiu 53537 indivíduos com idade superior a 18 anos que integravam um total de 81 ensaios clínicos.

Os resultados sugerem que a suplementação com vitamina D não tem efeito no número total de fraturas (36 ensaios; n=44790 ; RR= 1.00; 95%IC= 0.93-1.07), fraturas da anca (20 ensaios; n= 36655; RR= 1.11; 95%IC= 0.97-1.26), ou quedas (37 ensaios; n= 34144; RR= 0.97; 95%IC= 0.93-1.02). Estes resultados mantiveram-se nas subanálises de comparação entre a utilização de doses baixas ou elevadas (> 800U por dia) de suplementação. Também não se verificaram diferenças clinicamente relevantes para a densidade mineral óssea. Por último, os autores realizaram uma “Trial Sequential Analysis” e concluíram que a suplementação com vitamina D não previne fraturas ou quedas e não tem efeitos clinicamente relevantes na densidade mineral óssea, com exceção na prevenção ou tratamento de raquitismo e osteomalácia em grupos de alto risco, recomendando, por fim, uma alteração das guidelines clínicas.

Apesar da robustez metodológica, bem como da inegável qualidade do estudo, este também é alvo de algumas limitações que carecem de análise cuidada:

  • A seleção dos títulos/ resumos foi realizada apenas por um autor. Este facto representa um relevante potencial viés de seleção, que pode ter levado à exclusão de artigos importantes. Aliás é nesse sentido que as recomendações para a realização de revisões sistemáticas exigem que este passo seja realizado por dois revisores.
  • Os autores reconhecem que foram incluídos ensaios clínicos com importantes limitações metodológicas. Não existe nenhuma recomendação que exija a sua exclusão! Contudo, como foi encontrada uma heterogeneidade moderada nos resultados é relevante questionar-se o viés estatístico que esta inclusão acrescentou às análises porque podemos estar na presença de uma adição de heterogeneidade clínica (diferenças entre participantes) e metodológica (diferenças nos desenhos dos estudos combinados). A presença da heterogeneidade é ainda mais relevante no caso particular das “Trial Sequential Analyses”.
  • Os autores reconhecem ainda que é possível que os ensaios com populações com baixa concentração sérica de 25OHD possam ter diferentes resultados, já que apenas quatro ensaios (831 participantes) apresentaram concentrações inferiores a 25 nmol/L (10ng/ml). Este dado é crucial porque efetivamente estamos a referir-nos a uma população que tem uma representação ínfima na amostra do estudo (5% dos ensaios incluídos). Devido ao tamanho da amostra global do estudo, o potencial efeito terapêutico da vitamina D das subpopulações perde representatividade estatística.

 

De acordo com este estudo existe uma tendência global de que a utilização de suplementação com vitamina D não terá efeito terapêutico. Todavia, existem populações específicas, diferentes contextos, níveis de exposição solar, e outras condições, que devem ser tidas em consideração pelo que a “chamada para alteração” das guidelines deve ser acautelada e acolhida de forma mais conservadora. São necessários mais e melhores estudos, e sobretudo que estes se baseiem nas características específicas das populações.

Em resposta ao artigo de Bolland e col, a. International Osteoporosis Foundation aconselha os doentes a não deixar de tomar os suplementos de vitamina D que lhe tenham sido prescritos, sem  primeiro discutir as implicações desse gesto com o seu médicos. Leia mais:   https://www.iofbonehealth.org/news/dont-confuse-vitamin-d-supplements-calcium-and-vitamin-d-supplements

Autores: Eduardo Santos, Serviço de Reumatologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Portugal Centre for Evidence-Based Practice: a Joanna Briggs Institute Centre of Excellence.

José António Pereira da Silva, Serviço de Reumatologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

Referências:

Bolland MJ, Grey A, Avenell A. Effects of vitamin D supplementation on musculoskeletal health: a systematic review, meta-analysis, and trial sequential analysis. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2018. https://doi.org/10.1016/S2213-8587(18)30265-1

Higgins J, Green S. Cochrane handbook for systematic reviews of interventions: version 5.1.0. The Cochrane Collaboration. 2011.

Wetterslev J, Jakobsen JC, Gluud C. Trial Sequential Analysis in systematic reviews with meta-analysis. BMC Medical Research Methodology. 2017;17(1):39.

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