Suplementação mensal de Vitamina D e risco de doença cardiovascular: resultados do estudo VIDA

Suplementação mensal de Vitamina D e risco de doença cardiovascular: resultados do estudo VIDA

Ensaio Clinico VIDA: suplementação mensal com vitamina D não reduziu o risco de doença cardiovascular

Sabemos com base em estudos epidemiológicos observacionais que a vitamina D pode ter um papel relevante na prevenção cardiovascular, mas a maioria dos resultados dos estudos disponíveis estavam fortemente limitados por confundimento e causalidade reversa (isto é, os indivíduos com estados de saúde mais precários tendem a ter menos exposição solar e pior estado nutricional). No entanto, existia uma plausibilidade científica para esta associação entre vitamina D e doença cardiovascular, pois o recetor da vitamina D é expresso por todo o sistema cardiovascular, e portanto é expectável do ponto de vista mecanístico que tenhamos efeitos metabólicos desta hormona em vários tecidos, incluindo no coração e nos vasos. Todavia, até muito recentemente, os dados provenientes de ensaios clínicos aleatorizados e controlados por placebo eram escassos, e é bem claro que associação não significa causalidade.

Oportunamente, nos últimos dois anos foram publicados vários estudos aleatorizados e controlados por placebo sobre esta temática. Neste comentário, debruçamo-nos sobre o estudo VIDA. Este estudo neozelandês, que incluiu 5110 participantes, aleatorizou cerca de 2500 indivíduos para uma estratégia de vitamina D3 em alta dose (200.000 UI, seguidas de 100.000 UI por mês) versus placebo, durante pouco mais de 3 anos. Como desfecho primário analisou a incidência de morte cardiovascular e doença cardiovascular, incluindo um subgrupo pré-especificado de doentes com deficiência (25-OH-D) < 20 ng/mL. Durante o estudo, que incluiu uma população com baixo risco cardiovascular global (apenas 6% com história de enfarte e 2% com história de acidente vascular cerebral), a suplementação com vitamina D duplicou os níveis basais da hormona nos doentes tratados (54.1±16.0 versus 26.4±11.6 ng/mL). Apesar disso, não se demostraram quaisquer diferenças no desfecho primário (11.8% vs. 11.5%, = 0.81), nem em qualquer dos múltiplos desfechos secundários, que incluíam vários componentes de eventos cardiovasculares. Também não se observou qualquer interação no subgrupo pré-especificado de doentes que sofriam de deficiência de vitamina D à partida.

O estudo sofre de duas importantes limitações. É possível que a sua duração não tenha sido suficiente para demonstrar benefício da suplementação com vitamina D. Por outro lado, a suplementação foi mensal, e na altura pensava-se que se a suplementação fosse diária ou semanal o efeito seria diferente. Entretanto, o recente estudo VITAL1, que estudou uma população de 25.000 doentes durante 5 anos com uma administração diária de 2000 mg de vitamina D, também foi negativo.

Os autores do VIDA e do VITAL devem ser reconhecidos pela condução de dois importantes estudos que são criticamente importantes para compreender o papel dos suplementos alimentares, neste caso vitamina D, na saúde e prevenção cardiovascular. Combinando os resultados destes dois estudos, não parece haver papel nos doseamentos de vitamina D e suplementação de forma rotineira de vitamina D quando o objetivo é reduzir o risco cardiovascular. Provavelmente a melhor forma de a suplementar é praticar exercício físico aeróbico moderado ao ar livre pelo menos 5 vezes por semana e, desse modo, sintetizar endogenamente a vitamina que necessitamos sem necessidade de suplementação exógena

 

1Manson JE et al. Vitamin D supplements and prevention of cancer and cardiovascular disease. N Engl J Med 2018 Nov 10; [e-pub]. (https://doi.org/10.1056/NEJMoa1809944)

 

Comentário de:

Rui Terenas Baptista, MD, PhD
Médico Cardiologista, Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

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