Suplementação de vitamina D durante a gravidez

Suplementação de vitamina D durante a gravidez

Revisão Sistematizada da Cochrane Database – um resumo do Dr. Daniel Pereira da Silva

A suplementação com vitamina D durante a gravidez tem sido recomendada por alguns autores, assumindo que a sua deficiência ou a insuficiência seja comum nas grávidas e que essa circunstância seja factor condicionante de desfechos gestacionais adversos. Foi realizada uma revisão da Cochrane com o objetivo de avaliar se a suplementação oral de vitamina D, isolada ou combinada com cálcio, ou com outras vitaminas e minerais, em mulheres durante a gravidez, pode melhorar os desfechos maternos e neonatais de forma segura.

Metodologia

Foram revistos os ensaios clínicos com randomização individual ou por cluster (conglomerados), que avaliaram os efeitos da suplementação com vitamina D isolada ou em conjunto com outros micronutrients, em mulheres grávidas.

Foram incluídos 15 ensaios clínicos, que envolveram um total de 2.833 mulheres. A suplementação de vitamina D isolada versus não suplementação foi avaliada em 9 estudos e 6 compararam os efeitos da suplementação combinada de vitamina D e cálcio versus a não suplementação. A maioria dos estudos tinha um risco não avaliável de enviezamento e outros tinham risco elevado de viés pela metodologia de dupla ocultação e taxa de perdas.

Resultados

Vitamina D isolada versus nenhuma suplementação/placebo

Os resultados de 7 estudos, que envolveram 868 mulheres revelaram, de forma consistente, que as mulheres que receberam suplementos isolados de vitamina D, em especial as que tomaram a vitamina D diariamente, tinham níveis de 25-hidroxivitamina D mais elevados do que aquelas que receberam placebo ou nenhuma intervenção, mas essa resposta foi altamente irregular. De acordo com 2 estudos com 219 mulheres, a taxa de pré-eclâmpsia foi menor no grupo que fez vitamina D com vitamina D do que nos grupos sem suplementos ou placebo (8,9% contra 15,5%; RR 0,52; IC 95% 0,25-1,05, evidência baixa).

Em 2 estudos que incluiram 219 mulheres o risco de diabetes gestacional foi semelhante no grupo suplementado comparado ao grupo sem intervenção ou placebo (RR 0,43; IC95% 0,05-3,45, evidência muito baixa). Não foram detectadas diferenças claras na taxa de efeitos adversos.

No que respeita aos resultados referentes aos recém-nascidos, os dados de 3 estudos que incluiram 477 mulheres sugerem que a suplementação de vitamina D durante a gravidez reduz o risco de parto prematuro em comparação com a não intervenção ou o placebo (8,9% versus 15,5%; RR 0,36; IC95% 0,14-0,93, evidência moderada).

Os dados de 3 estudos com 493 grávidas também sugerem que o grupo suplementado com vitamina D teve menor probabilidade de ter bebés com peso abaixo de 2.500g do que os grupos que recebiam placebo ou nenhuma suplementação (RR 0,40; IC95% 0,24-0,67, evidência de qualidade moderada).

Quanto aos outros desfechos, não houve diferenças claras nas taxas de cesarianas em 2 estudos com 312 mulheres (RR 0,95; IC95% 0,69-1,31); morte fetal (RR 0,35, IC95% 0,06-1,99) em 3 estudos com 540 mulheres; ou morte neonatal (RR 0,27; IC95% 0,04-1,67) em 2 estudos com 282 mulheres. Encontrou-se uma pequena indicação de que a suplementação de vitamina D aumenta o comprimento dos recém-nascidos (diferença media de 0,70 cm, IC95% 0,02-1,43) em 4 estudos com 638 bebés, bem como o perímetro cefálico ao nascimento (diferença media de 0,43 cm, IC95% 0,03-0,83) em 4 estudos com 638 mulheres.

Vitamina D e cálcio versus nenhuma suplementação/placebo

As mulheres que receberam vitamina D com cálcio tiveram menor risco de pré-eclâmpsia do que aquelas que não receberam qualquer intervenção (RR 0,51; IC95% 0,32-0,80, evidência moderada) em 3 estudos com 1.114 mulheresmas também tiveram aumento no risco de parto prematuro (RR 1,57; IC95% 1,02-2,43, evidência moderada) em 3 estudos com 798 mulheres.

A concentração sérica de vitamina D materna no termo da gestação, bem como as taxas de diabetes gestacional, de efeitos adversos e de baixo peso ao nascer, foram relatadas apenas num estudo.

Conclusão

Os estudos avaliados forneceram mais evidências sobre os efeitos da suplementação de vitamina D isolada ou associada ao calico, nos resultados da gravidez.

Fazer suplementação de vitamina D à grávida em dose única ou dose contínua aumenta os níveis séricos de 25-hidroxivitamina D e pode reduzir o risco de pré-eclâmpsia, baixo peso ao nascer e parto prematuro. No entanto, quando a vitamina D e o cálcio são combinados, o risco de parto prematuro parece aumentar.

O significado clínico do aumento da concentração sérica de vitamina D ainda não está definido. Os resultados precisam ser interpretados com cautela, salientando-se que em todos os estudos, faltaram dados sobre os efeitos adversos.

Com base nas evidências atuais, ainda não fica claro se a suplementação com vitamina D deve fazer parte da rotina de cuidados pré-natais para todas as mulheres com o objetivo de melhorar os resultados maternos e perinatais, mas há indícios de que a suplementação pode reduzir o risco de pré-eclâmpsia e aumentar o comprimento do recém-nascido e o perímetro cefálico.

São necessários ensaios clínicos conduzidos com o indispensável rigor metodológico para confirmar esses efeitos.

 

Referências:

Vitamin D supplementation during pregnancy: Updated meta-analysis on maternal outcomes.

Palacios C, De-Regil LM, Lombardo LK, Peña-Rosas JP.

J Steroid Biochem Mol Biol. 2016 Feb 11. pii: S0960-0760(16)30025-5. doi: 10.1016/j.jsbmb.2016.02.008.

 

Revisão elaborada pelo Dr. Daniel Pereira da Silva, antigo director do serviço de Ginecologia do IPO de Coimbra e actualmente Presidente da Direção da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia desde 2015 e Scientific Advisor de Ginecologia para o Fórum D.

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